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Negócios23 de junho de 20264 min de leitura

O CRM não é o problema. O processo é.

Trocar de ferramenta não conserta um funil que ninguém desenhou. Como saber se o seu problema é software ou processo antes de assinar outro contrato.

Por Thomas Sashida

Toda empresa que nos procura para implantar CRM já teve um. Às vezes dois. A frase de abertura costuma ser alguma variação de "o anterior não funcionou, o time não usava".

Antes de escolher a ferramenta nova, vale entender por que a antiga foi abandonada. Na quase totalidade dos casos, o motivo não tem nada a ver com o software.

O que um CRM realmente faz

Um CRM não organiza o seu processo comercial. Ele reflete o processo que você já tem. Se o processo existe só na cabeça de cada vendedor, o CRM vira um lugar onde cada um inventa o seu próprio jeito de registrar coisas, e em três meses a base está inútil.

Isso explica o padrão que a gente vê: empresa implanta, usa por seis semanas, o preenchimento vai caindo, alguém cobra em reunião, sobe de novo por duas semanas, e depois morre de vez.

O time não é indisciplinado. Ele está sendo pedido para alimentar um sistema que não devolve nada em troca.

O teste das três perguntas

Antes de assinar qualquer ferramenta, responda estas três. Se travar em alguma, o problema não é software.

1. Quais são as etapas do seu funil, e o que define a passagem de uma para outra?

Não vale "primeiro contato, negociação, fechamento". Vale o critério: o que precisa ser verdade para uma oportunidade sair de "primeiro contato" e entrar em "negociação"? Se a resposta for "quando o vendedor sente que avançou", você não tem etapa, tem sensação.

2. Qual informação você precisa ter para decidir algo?

CRM enche de campo porque alguém achou que seria bom saber. Todo campo obrigatório que não alimenta uma decisão é atrito puro. Comece pelo relatório que você quer ver na reunião de segunda e trabalhe de trás para frente: só entra campo que aparece nesse relatório.

3. O que o vendedor ganha ao preencher?

Se a resposta é "a gestão consegue acompanhar", o CRM vai morrer. Precisa haver retorno para quem digita: o follow-up que aparece sozinho na tela, o histórico que evita começar a conversa do zero, a proposta que sai pronta com dois cliques.

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A ordem que funciona

Quando a gente entra num projeto de CRM, a ferramenta é a última coisa que a gente toca. A sequência é:

  1. Desenhar o funil com o time que vende, não com a diretoria. Quem está na rua sabe onde a conversa realmente trava.
  2. Escrever os critérios de passagem. Uma frase por etapa, sem espaço para interpretação.
  3. Definir o relatório de decisão. Que números você olha para decidir onde investir tempo e verba no mês.
  4. Só então escolher e configurar a ferramenta, com o mínimo de campos que sustenta aquele relatório.
  5. Treinar em cima do processo, não em cima dos botões. Quem entende por que a etapa existe preenche sem cobrança.

Note que quatro dos cinco passos acontecem fora do software.

Sobre escolher a ferramenta

Quando chega a hora, a escolha é bem menos dramática do que a internet faz parecer. Para a maioria das operações de venda consultiva no Brasil, qualquer uma das opções conhecidas dá conta. Os critérios que realmente pesam:

  • Integra com o seu WhatsApp? No Brasil, o histórico da conversa está lá. CRM que não conversa com WhatsApp gera trabalho duplicado.
  • Quantos cliques para registrar uma interação? Teste você mesmo, cronometrando. Diferença de trinta segundos por registro vira horas por mês.
  • Você consegue montar um relatório sozinho? Se depende de suporte ou consultoria para cada visão nova, o custo real é outro.

Preço quase nunca é o fator decisivo, porque a diferença entre as opções é pequena perto do custo de uma implantação que fracassa e precisa ser refeita.

O ponto

CRM é um espelho. Se o processo é confuso, você vai pagar mensalidade para ver a confusão organizada em colunas.

A boa notícia é que o trabalho de desenhar o processo tem valor mesmo se você nunca implantar ferramenta nenhuma. Já a ferramenta sem o processo não tem valor nenhum.

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